- 0
O Pelo da Palavra e Outros Crimes
Editora: ALAMEDA CASA EDITORIAL
Avaliação:
R$ 58,00 á vista
Em até 4 de 14.50 s/juros
Fora de estoqueCódigo: 9786559664245
Categoria: Poesia
Descrição Saiba mais informações
Como narrar uma história por meio da poesia?Essa é uma questão antiga, tão antiga quanto a Antiguidade, mas que foi duramente colocada em xeque pela ascensão do romance nos últimos três séculos. A poesia perdeu, diante da vitória dessa forma específica de prosa, parte de seu espaço e de seu lugar. Quando a literatura quer mergulhar no real ou pretende criar o efeito de real, a expectativa do leitor contemporâneo é encontrar a prosa, não a poesia.Depois dos modernismos do século XX, a fragmentação vicejou, colocando ainda mais de lado as opções narrativas em verso de fatos e acontecimentos. Não que elas tenham desaparecido, mas, longe de serem a forma dominante, a exposição dos acontecimentos como que ficou a reboque de experimentações formais e expressões do indivíduo na maior parte dos livros de poesia.Alguns poetas, como João Cabral de Melo Neto, encontrarão no texto teatral versificado a alternativa para se fazerem ler, seja reconstituindo uma biografia como a de Frei Caneca, seja contando as dores do sertanejo diante da seca.Assim, depararmo-nos com poemas que se constroem a partir da história e do real, do coletivo ou de uma nação, somos desafiados enquanto temerosos leitores contemporâneos de poesia. O que esperamos encontrar? Os fatos não matarão os versos? Temos um projeto ético ou estético? Questionamentos que, não raro, acabam por justificar uma fuga crítica, que exprime mais um sinal de covardia do que de dúvida justa.O pelo da palavra e outros crimes, de Renato Franco, enfrenta, com sucesso, tal risco. Desde o primeiro poema, “1968, Dezembro”, da parte intitulada “Crimes diversos”, reconhecemos o AI-5 como o pontapé inicial de uma aventura histórica e poética de enfrentamento político e estético.Composições como “a verdade dura dos tanques”, alinhadas ao “horizonte de capacetes” que anuncia — e prenuncia — “medalhas / triturando versos”, indicam que a força dos fatos não fica aquém da qualidade dos versos. Os sentimentos estão aqui e ali, e são coletivos, pelo menos nessa primeira parte, tão encarcerados quanto as vidas.“Estado de Exceção 1971” revela esse fechamento interior, pois “em silêncio / se vivia”: as portas continuavam trancadas neste momento, e também em “1972”. “Tudo é tão cotidiano / tudo é tão terrível” em “Cotidiano 1973”, enquanto em “Segurança Pública 1980” a casa continuava trancada, embora o desejo de sair já pudesse, ainda que um tanto desesperadamente, ser expresso.De ano em ano, as exceções da ditadura vão, como afirma o poema “Estado de Exceção II”, roendo o caroço da sensatez e, assim, por meio de uma cronologia com recuos e avanços, Renato Franco faz versos que mostram os aprisionamentos e as resistências sob a história, documentando a barbárie nossa de cada dia, capitaneada por inimigos que odeiam a poesia e, portanto, a palavra.A primeira parte é esta, uma pequena história poética da ditadura militar, de 1968 a 1969.A segunda parte, “Para ser caluniado”, é menos coletiva, mas não deixa de questionar-se, entre amores e expectativas, sobre o papel da história. Num poema diretamente a ela dirigido, lemos uma pergunta: “Você também sente / entre / o instante presente / e o ainda recente / insuperável distância?”O tempo, os fatos e as memórias, algumas mais banais que outras, vão deixando suas marcas, suas ruínas, enquanto as mercadorias, presas nas vitrines, parecem observar o leitor e os preços, estes últimos os únicos que estão, efetivamente, soltos: já sob a ordem neoliberal, apenas um corpo caindo conquista fugazmente a transitória liberdade.Chegamos à terceira e última parte, “Cuidado: frágil”, uma formulação que reproduz, formalmente, o título de um podcast que ficou famoso nos últimos tempos, o “Calma: urgente”.A queda livre que é individual e encerra a parte dois volta coletiva, no poema “8 de janeiro”, uma referência novamente óbvia, mas necessária, à vida política andando sobre cascas de ovos. Não temos aqui um corpo que cai, mas um espinho que fere a pele do dia.Luta de classes, dosimetria, terras raras, inteligência artificial, novas e renovadas violências apagam sonhos e projetos de um eu lírico que fala, entre o debochado e o desiludido, mas sempre contando uma história, em nome da geração: “o futuro já não nos preocupa; mas resta estranha dor nos ossos”.Menos ardente, mas não menos questionador, “o passado lentamente / se espreguiça / na tábua de passar roupas”.Em “Branca obsessão”, Renato Franco apresenta os versos de onde tira o título do livro: explicando o seu projeto de poesia, afirma a necessidade premente de “cortar rente do pelo / da palavra”. Este exercício construído ao longo do livro, em que algumas palavras ressurgem e novamente são cortadas pela construção poética e pela própria história, é o que permite perceber a consistência e a firmeza da poesia aqui reunida, que conta ao mesmo tempo uma e várias histórias do nosso tempo.Em cada poema, em cada página, O pelo da palavra escreve a contrapelo do tempo e dos fatos, pegando a vida pela raiz, mostrando existências que encontraram e desencontraram, encontram e desencontram, ainda que retorcidas pela violência da terra e pela rigidez do solo da história, caminhos para construir identidades, individuais e coletivas, que contestam e ao mesmo tempo explicam nosso mundo.Haroldo Ceravolo Sereza, julho de 2026
| Acabamento | Brochura |
|---|---|
| Páginas | 134 |
| Data de publicação | 21/09/2026 |
| Formato | 12x18 |
| Lombada | 1 |
| Altura | 1 |
| Largura | 12 |
| Comprimento | 18 |
Loading...

